Paris, 1794, no auge do Terror revolucionário. Blanche de la Force, jovem aristocrata consumida por um medo patológico e existencial, ingressa como noviça no convento carmelita de Compiègne. Não para encontrar refúgio, mas para travar uma batalha interior que a persegue desde o nascimento. A morte agonizante e despojada da primeira Madre Superiora, Madame de Croissy, instala no drama a questão teológica central: a transferência da graça entre almas. A jovem noviça Constance intui que a morte «errada» de Croissy abrirá caminho para a morte «certa» de outrem, premonição que ressoa na doutrina católica da comunhão dos santos. Quando o convento é dissolvido pelas autoridades revolucionárias e as freiras votam o martírio, Blanche foge aterrorizada. No tableau final, porém, um dos mais sublimes de toda a história da Ópera, regressa serena entre a multidão e junta-se às Irmãs que sobem, uma a uma, ao cadafalso entoando o Salve Regina . O medo está vencido e le transfert de la grâce consumada. Poulenc privilegiou sempre a inteligibilidade do texto bernanosiano sobre qualquer exuberância orquestral, criando uma obra em que a palavra e o som se fundem com uma intimidade raramente atingida no repertório do século xx.