Criada a convite das comemorações dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães, esta obra do coreógrafo Miguel Pereira reflete sobre o legado e as consequências civilizacionais desse período na contemporaneidade, nomeadamente na identidade da dança atual. Ao questionar conceitos como globalização e universalidade, o espetáculo indaga o que define hoje a dança em países como Portugal, Brasil, Chile ou Uruguai. Terá ela nascido de uma cultura dominante? Que expressão resta ao “outro” perante a imposição histórica? O ponto central da reflexão artística é a morte de Magalhães antes de terminar a missão, sendo a viagem concluída por Elcano. Numa analogia a essa interrupção, o projeto pensa o momento em que um sistema conceptual, político ou estético colapsa para dar lugar a um novo paradigma. Questiona-se o que aconteceria se o “criador” europeu desaparecesse e a sua lógica de autoria fosse abalada. A peça, que se estreou em Montevideu em dezembro de 2019, assume-se como uma deriva inacabada e irresolúvel, atravessada pelas imprevisibilidades e surpresas de uma verdadeira viagem. Fui desafiado a criar esta obra no âmbito das comemorações dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão Magalhães que se realizaram ao longo de 2019 e 2020. Realizei a criação deste espectáculo tentando reflectir de algum modo sobre o legado e as possíveis consequências, civilizacionais, desse período na nossa contemporaneidade e naquilo que hoje nos define, nomeadamente no...