Não exageramos se dissermos que O Pai (1887) é uma das peças mais ferozes de August Strindberg. Um abalo sísmico em três atos, que continua a sacudir até aos alicerces as paredes da sala de estar da família burguesa. Num lar tradicional, o pai, Capitão, e a mãe, Laura, estão em conflito aberto sobre a educação da filha, Berta. “É como estar metido numa jaula de tigres.” Quando o Capitão tenta impor a sua vontade, Laura retalia, instilando na imaginação febril do marido o vírus da dúvida: seria ele, de facto, o pai de Berta? A incerteza lança o Capitão no devastador pesadelo da paranoia, da alucinação e até da demência. O Pai põe em cena vários dos temas caros a Strindberg, não sem uma sombra de misoginia: o autor via as relações entre homens e mulheres como uma “luta de morte pelo poder”. Com esta peça, regressamos à obra do dramaturgo das “vastas extensões do íntimo” e ao trabalho de encenação de Gonçalo Waddington.